Dizer a Verdade
Jamis Lopez
Sabemos que mentir não é correcto, mas já nos questionámos se é correcto dizer uma mentira «piedosa»? A resposta é não. Chamamos «piedosas» às mentiras quando elas parecem inofensivas; contudo, em termos espirituais falamos do certo e do errado baseando-nos num princípio de conteúdo, como as coisas na verdade são, e não pela sua aparência.
Mentir é Morrer Espiritualmente
Desde cedo aprendemos nos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental que uma mentira no Mundo dos Desejos «é tanto um crime como um suicídio», pois não só destrói o que falsamente representa, como também se destrói a si mesma no processo.
No estudo de Max Heindel intitulado Arquétipos, lemos que «quando se dá uma ocorrência, uma certa forma pensamento gerada no mundo invisível regista o incidente. Sempre que se fala ou comenta o incidente, é criada uma nova forma de pensamento que se coaduna com o original e o reforça, desde que ambos sejam verdadeiros e sintonizados com a mesma vibração. Mas se é proferida uma mentira acerca de um acontecimento, as vibrações do original e as da reprodução não são idênticas; não estão em sintonia e ficam desafinadas entre si, dilacerando-se mutuamente».
Este trecho é desenvolvido em A Teia do Destino (VI Parte: «A criação do ambiente — A génese das enfermidades mentais e físicas») onde aprendemos que os nossos padrões de pensamento durante a vida têm um impacto directo no arquétipo do corpo, do qual depende a nossa condição física em vida, e ao nos alinharmos com o que é verdadeiro usufruiremos de uma melhor saúde no futuro.
Amar a Verdade
Assim, quando dizemos «a verdade» referimo-nos ao que dizemos em relação ao que percepcionamos como tal, e também em relação à forma registada no mundo invisível. Se tivermos uma coisa em mente e a adulteramos, estamos a mentir. Se fizermos pouco esforço no sentido de vermos claramente, de sermos objectivos e se formos descuidados com a verdade, tornar-nos-emos igualmente culpados. Donde se conclui que temos de amar a Verdade para que possamos buscá-la e eventualmente encontrá-la.
Max Heindel escreve em A Teia do Destino que «mesmo na actualidade apenas uma pequena percentagem de pessoas está preparada para viver tão perto da verdade como a percepcionam, para a confessar e a professar perante os homens […]». Em tempos passados «o amor à verdade era quase desprezível» e os homens estavam naturalmente inclinados a «desrespeitar os interesses dos outros. Dizer uma mentira não parecia de modo algum repreensível, sendo, por vezes até, considerado meritório» (Parte VII: «A causa das doenças»).
Egocentrismo
Ao mentirmos, fazemo-lo com um objectivo: a pessoa a quem mentimos, e o assunto sobre o qual mentimos. Ao mentir estamos a desrespeitar alguém e estamos a provar ser egocêntricos, protegendo os nossos próprios interesses, mesmo cobardemente. Seremos cobardes a este ponto? Pode ser que sim. Trouxemos connosco do passado, e ainda trazemos, estas tendência inatas de auto-interesse e auto-protecção. Mas temos necessidade de continuar a fazê-lo? Acho que não. Se a nossa jornada espiritual vai começar, ela tem de começar algures. Dizer a verdade é um ponto de partida bastante prático.
Não amamos o ser humano ou a Deus quando mentimos. Se vamos amar o próximo como a nós mesmos, então comecemos por fornecer respostas verdadeiras, que nós próprios acharíamos aceitáveis — nem mais nem menos, a quem quer que seja. Dizer a verdade tanto aos que amamos como aos que não amamos é uma maneira de realizar as máximas «Faz aos outros como gostarias que te fizessem a ti» e «Ama o teu inimigo», tal como é ensinado no Sermão na Montanha (Mateus, caps. 5 a 7).
Praticar para Alcançar a Perfeição
O apóstolo Tiago escreveu: «Aquele que não peca no falar é homem perfeito, capaz de pôr freio ao corpo todo»(Tiago 3, 2).
Em Princípios Ocultos de Saúde e Cura, Max Heindel escreveu: «As verdades eternas só são percepcionadas quando entramos nos mundos mais elevados e particularmente na Região do Pensamento Concreto; por isso temos de cometer erros e mais erros, apesar dos nossos esforços mais sérios, para saber e dizer sempre a verdade» (Capítulo V: «Causas específicas da doença»).
Precisamos de pôr em prática os nossos princípios Cristãos, começando agora mesmo a «dizer a verdade».
O Período de Júpiter
O que acontecerá se começarmos a dizer apenas a verdade? Poderemos imaginar? Um escritor tentou imaginá-lo e escreveu uma história, de que foi feito um filme chamado O Mentiroso Compulsivo (Liar, liar, 1997) com Jim Carrey. Durante 24 horas um mentiroso incorrigível tinha de dizer a verdade. Para ele era muito embaraçoso e muito difícil.
No vindouro período de Júpiter a verdade e a mentira estarão patentes. O que quer que digamos, as pessoas verão o que queremos dizer utilizando a sua «visão mental». Será muito desconfortável para muitos de nós! Mesmo actualmente, muitas pessoas sensitivas sabem quando estamos a mentir pela nossa maneira, pelo tom de voz, cambiantes na expressão, ou simplesmente pela inconsistência do nosso testemunho.
São hoje em dia usadas técnicas científicas para determinar se estamos ou não a falar verdade. Mesmo a direcção do nosso olhar revela se estamos a tentar recordar alguma coisa ou se fazemos um esforço para arranjar uma invenção improvisada.
Uma Palavra de Aviso
Antes de começarmos a “dizer a verdade”, precisamos de ter cautela para não nos excedermos. Se não pudermos ser objectivos, não podemos dizer a verdade. Um pensamento forma do acontecimento já foi gravado, independentemente da nossa percepção.
Opiniões subjectivas e negativas não são «a verdade», por muito que acreditemos nelas ou por muito que as repitamos. Uma opinião negativa é um dado a que se juntou um pensamento negativo e, na maior parte dos casos, o resultado é um julgamento precipitado. As mentiras são perigosas, sobretudo as «mentiras nocivas e maliciosas, que podem acabar com alguma coisa boa, se forem suficientemente fortes e repetidas vezes bastantes»(Conceito Rosacruz do Cosmos, Cap. I: «Os Mundos visíveis e invisíveis»).
Podemos tentar desculpar o mentiroso, dizendo «Ele só quer chamar atenção.» Como podemos sabê-lo? Dizemo-lo porque achamos mais fácil e estamos irritados. A verdade nem sempre é a primeira prioridade; insistir em ser verdadeiro pode ser inconveniente. Requer a nossa atenção quando podemos nem estar interessados. Os nossos julgamentos súbitos, oriundos de contrariedades e impaciência não estão de acordo com as coisas como realmente são. Uma vez proferidas, as mesmas conclusões, muitas vezes precipitadas, são repetidas mais fácil e frequentemente.
Até que ponto nos importamos com o impacto que podemos ter relativamente à pessoa acerca da qual falamos? «Bem, isto é verdade, não é?» respondemos. Mas será? Provavelmente não, mas será que nos importamos? Temos de colocar a nossa persona de lado e perguntar: qual é a verdade, neste caso concreto?
Os aspirantes espirituais aprendem a observar correctamente, vendo-se «na terceira pessoa». A verdade permite-nos auxiliar os outros, e não magoá-los, se soubermos exprimir-nos correctamente. A análise objectiva, por vezes, indicar-nos-á o erro, mas outras vezes não. A objectividade procura soluções; culpar os outros parece ser um permanente mecanismo de autodefesa.
Ver o Bem
Dizer «a verdade» não significa usar as nossas competências analíticas para encontrar falhas nos outros e denunciá-las, muitas vezes com pouca generosidade de espírito. Como estudantes Rosacrucianos esforçamo-nos por «falar, agir e ver apenas o que é bom nos nossos relacionamentos diários com os outros.»
Somos instruídos para ver o lado positivo em qualquer situação, pois ao fazê-lo o que é positivo fortifica-se. A verdade sobre uma situação ou pessoa, quando identificada e proferida, sairá reforçada. Um professor de Matemática reformado, um ateu que pouco beneficiava do conhecimento das leis espirituais, verificou que tudo aquilo que nos torna gratos, promove crescimento.
Tal como é mencionado em O Corpo de Desejos, o conhecedor de ciência oculta baseia as suas acções na lei cósmica: «Ao procurar o bem no mal, transmutará, a seu tempo, o mal no bem. Se a forma usada para minimizar o mal é fraca, não terá grande efeito e será destruída pela forma má, mas se for forte e repetida frequentemente, terá como efeito a desintegração do mal e a sua substituição pelo bem. Esse efeito, entenda-se bem, nunca será conseguido pela mentira, ou pela negação do mal, mas pela procura do bem» (Parte V: «Espiritualização do Corpo de Desejos do Homem» — Capítulo III: «Preparação para a vida superior»)
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