Dizer a Verdade
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Humildade e Coragem

Dizer a verdade é muitas vezes uma experiência de humildade; a tentação da mentira é frequentemente utilizada para com alguém que sentimos como nosso adversário. Por essa razão, quando dizemos a verdade mostramos respeito pela pessoa a quem teríamos a tentação de negá-la, sobretudo se essa a verdade nos apontar algum erro.

Dizer a verdade nem sempre é fácil e pode ser prejudicial para a nossa reputação, até para a nossa vida, e pode exigir uma fé que simplesmente não possuímos. Que fazer, então? Não dizermos a verdade? Todavia o mínimo que podemos fazer é não mentir a nós mesmos num esforço para justificar uma mentira, e saber a diferença entre um pretexto e uma justificação.

Corrie ten Boom escreveu no seu livro O Esconderijo (The Hiding Place) que, durante a ocupação Nazi, na Holanda, ela disse a verdade aos soldados que procuravam Judeus, apontando para a entrada do seu verdadeiro esconderijo. Sabe-se lá porquê, mas por um milagre de fé, os soldados não procuraram onde ela indicou.

Pensar de Maneira Diferente

Agora que começámos a prestar atenção ao que dizemos, ficaremos desconcertados ao verificar a frequência com que distorcemos os factos, ou com que mentimos. Reconhecendo que alguns leitores da revista Rays From the Rose Cross[1] podem ter ultrapassado esta fase de incertezas, para os restantes de nós perguntemos: Quantas vezes dizemos ou ouvimos pessoas aconselharem «Diz isto» ou «Diz aquilo», ou «Não precisas de dizer» ou «Ninguém saberá», ou «Quem é que vai saber»?

O primeiro passo é eliminar esses hábitos e práticas que teríamos dificuldade em confessar. Não podemos dizer que não fizemos o que fizemos, e não podemos dizer que fizemos o que não fizemos, etc. Se dissermos que fizemos e não fizemos, temos de corrigir o nosso erro, e se não fizemos e dissermos que fizemos, mais uma vez temos de o corrigir.

Cristo disse que é melhor ser quente ou frio do que tépido porque Ele sabia que se erramos seremos apanhados e sofreremos por causa disso — e assim aprenderemos. Se mentirmos, perdemos uma vantagem importante como aspirantes espirituais.

Então como haveremos de responder a perguntas difíceis? Que deveremos dizer quando alguém nos pede a opinião e o que pensamos não é o que o interlocutor quer ouvir? Podíamos dizer-lhe o que ele quer ouvir; no entanto, dizer algo que contraste com os nossos pensamentos mais secretos significa mentir. Pensamentos são coisas. A questão é crucial. Não minimizemos as consequências de ser falso: «Uma mentira tanto é crime como suicídio.»

Para iniciarmos este processo de sermos verdadeiros, temos de cessar de ter pensamentos exageradamente críticos; é uma maneira de ficarmos mais leves. Aprendemos a abordar os outros com gentileza — como gostaríamos de ser abordados — colocando as coisas em perspectiva.

Existem maneiras de responder às pessoas com tacto, ou com humor, mesmo perante os assuntos mais delicados. A ignorância é o único pecado, dizia Max Heindel. Ao arranjarmos tempo para entender o que vemos, são-nos reveladas coisas que, de outro modo, nunca saberíamos. Então, ao possuirmos uma perspectiva mais esclarecida, podemos aprender a dar respostas mais afáveis.

Se formos confrontados com uma questão séria, à qual preferíamos não responder, podemos tentar ser «firmes mas justos». As pessoas respeitam o que é «firme mas justo»; não queremos mentir e não «precisamos» de mentir quando somos «firmes mas justos». Ser firme implica ouvir as objecções e medir as respectivas respostas, adaptando-as, se necessário.

Mentir a Deus

Nos Ensinamentos da Sabedoria Ocidental, ensinaram-nos a tratar o próximo em termos do seu Eu Superior, aquela parte de Deus dentro de cada um de nós. Ao fazê-lo estamos a dirigir-nos a Deus como Ele se manifesta em nós. Mentiríamos a Deus?

Encontramos um conceito paralelo nas obras de Elman Bacher sobre Astrologia, onde ele diz que «os planetas são pessoas». As forças cósmicas representadas no nosso carta astrológica, que está em nós, manifesta-se em nós através de pessoas. Mentimos a nós próprios? Infelizmente sim, e não poucas vezes. Dizemos que não nos interessa, não sabemos, não conseguimos; e no entanto, importamo-nos, sabemos e, isso sim, conseguimos.

É injusto fazer previsões negativas sobre o que as pessoas poderiam dizer ou fazer para justificar mentir-lhes; as pessoas não esperam que lhes mintam, que as tratem com desrespeito, e por isso reagem negativamente.

Esta abordagem não é garantia imediata de afeição, e devemos ter cuidado para não nos «arrependermos» de ter dito a verdade. A primeira reacção das pessoas raramente é a sua reacção final, mas aqui a questão não é como as pessoas reagem a nós; o importante é que façamos a nossa parte e, se alguém deseja contribuir, que seja bem vindo.

Se mentirmos com medo do que alguém possa dizer ou fazer, tanto maior a razão para dizer a verdade; se nos deixamos levar pela cilada do medo, isso far-nos-á sentir inferiores. Dar respostas exactas, que servem o interesse de todas as partes envolvidas, serve a Verdade e serve a Deus.

A única coisa que temos em comum com os outros é Deus, e «Deus é a Verdade». Se sacrificarmos Deus nos nossos relacionamentos, perderemos a dimensão dinâmica dessa relação, a dimensão em que nos damos, em que crescemos e encorajamos os outros a fazer o mesmo. Ao sacrificarmos o nosso pequeno ego, a nossa «face», em prol da Verdade, estamos a dar um valor real ao próximo; e estamos a viver segundo o nosso lema — o do «serviço amoroso e desinteressado pelos outros.»

Diamantes em Estado Bruto

Dizer a verdade pode ser difícil quando não fazemos disso um princípio orientador da nossa vida, mas, como aspirantes espirituais, existe uma vantagem acrescida para dizermos a verdade.

Max Heindel compara os estudantes, a este nível da sua carreira evolucionária, com «diamantes em estado bruto». É através da dor de viver que somos polidos, que somos clarificados, e podemos receber e transmitir cada vez mais Luz. Dizer a verdade em relação a alguma coisa que nos envergonha, pode muito bem causar-nos a dor da humilhação. Mas não nos devíamos conter nesta purgação. Ela é parte da nossa experiência quando fazemos a oferenda da nossa natureza inferior sobre o Altar de Bronze nos fogos purificadores duma retrospecção nítida.

Se nos protegermos do devido reconhecimento, evadindo-nos, o que estamos a proteger? O nosso eu inferior. Quem estamos a magoar? Todos, incluindo o nosso Eu interior ou superior, pois interpomos o tecido das mentiras entre o mentiroso, o nosso eu pessoal, e a Verdade viva.

Mas temos medo. O que nos irá acontecer? Esse é o ponto em que diferimos de Deus. Pedimos que a Sua vontade seja feita, e não a nossa. Se, ao mesmo tempo que recusamos mentir, abrimos a possibilidade de censura, libertámo-nos da prisão do isolamento, onde seríamos confinados pelo pecado.

Pouco ou nada do que é negativo se aderirá a nós, a menos que tenhamos contribuído para tal; mas isso não impede que nos arrependamos, e que oremos ao Pai para que mostre a Sua benevolência para connosco. Essa benevolência pode vir de uma direcção inesperada, até da parte do nosso acusador.

Enquanto as acções passadas são uma «causa» para as condições presentes, também as acções presentes determinam o nosso futuro, incluindo orações de arrependimento que podem ajudar a neutralizar o efeito de acções passadas injustas. Por boas razões nos ensinaram a arrepender-nos e a pedir perdão. O primeiro passo é confessar as nossas iniquidades. Simplesmente dizer a verdade é a confissão mais básica e pode ser eficaz na dissipação de complexos neuróticos de culpa e sentimentos de inferioridade.

É a sensação ardente da humilhação, seguida do remorso sincero, que apaga a memória dos nossos erros do átomo-semente físico alojado no nosso coração. Então, por que nos escondemos dessa experiência?

Se dizer a verdade nos leva frente a frente com o que fomos e fizemos, e com o que achamos censurável, então por que não dizer a verdade para que possamos repudiar e dissolver esse estado?

Não tenhamos medo: confiar nos outros em tudo o que dizemos, por mais incómodo ou doloroso que seja, trar-nos-á recompensas que nem podemos imaginar.


Jamis Lopez

Rays from the Rose Cross



[1] Este artigo veio publicado na revista Rays From the Rose Cross, editada por The Rosicrucian Fellowship, Oceanside, CA, USA.
 
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