CONFERÊNCIA I Os Três Exemplos de Cristo e o domínio do Corpo de Desejos
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     Muitos de nós nos interrogamos sobre as vicissitudes do mundo actual, nestes tempos tão conturbados que mais conturbados parecem devido à extraordinária proximidade em que nos encontramos de todos os pontos do planeta, devido ao fácil acesso aos eventos e lugares mais remotos, acesso praticamente instantâneo graças à inventividade humana e às novíssimas tecnologias que tal permitem - televisão, rádio, comunicações por satélite, notícias em directo, telemóveis, computadores, internet... Os males que afectam o ser humano - cataclismos naturais como terramotos, inundações, estiagens, fomes, epidemias, ou as catástrofes provocadas socialmente, os horrores que o homem inflige ao homem, guerras, atentados, crimes, morticínios ... - surgem-nos ampliados pela esmagadora quantidade e pela multiplicação de informação que nos chega de todo o lado, transmitindo uma sensação de pesadelo, de mal-estar e quase de desesperança quanto ao estado espiritual do nosso globo.

     A propósito do místico nascimento de Cristo pelo Natal, todos os anos, Max Heindel diz-nos que não devemos esquecer «que o nascimento de Cristo na terra é a morte de Cristo para a glória do céu; que na época em que rejubilamos com o Seu regresso anual, Ele fica submergido de novo na pesada massa fisica que cristalizámos à nossa volta e que é agora a nossa morada - a Terra. Ele fica assim incrustado neste pesadíssimo corpo, e aguarda ansiosamente o dia da Sua libertação final». 1

     O supremo ideal do aspirante à vida superior, de acordo com os Ensinamentos Rosacruzes, deverá ser, portanto, «tomar-se, mais do que nunca, o servo da Cruz, mais intimamente propenso a seguir o Cristo em tudo, sacrificando-se pelos seus irmãos e irmãs, elevando a humanidade dentro da sua imediata esfera de influência de modo a apressar o dia da libertação pelo qual o Espírito de Cristo anseia, gemendo e padecendo com as dores desse sofrimento». 2

     Entenda-se, porém, que o Espírito do Cristo Cósmico não «entra» no corpo sólido da Terra como o nosso espírito «entra» no corpo quando, por exemplo, regressamos do sono; trata-se da projecção de uma parte da Sua Consciência - um Raio Crístico - que fica em clausura na Terra e aí trabalha na eterização ou purificação do nosso planeta. Seja como for, sofre e sente tudo quanto uma consciência normal pode sentir através do seu corpo físico; sente a falta de moralidade, a violência, o ódio, as angústias, as crueldades e os crimes dos homens com uma intensidade inimaginável - donde a enorme responsabilidade que nos incumbe, ajudar o Cristo e aliviá-Lo da Sua dolorosa e esmagadora carga, tornando-nos melhores de acordo com os ensinamentos evangélicos a fim de libertá-Lo do Seu dadivoso e repetido sacrifício anual, evitando-Lhe o sofrimento que os nossos erros e as nossas atrocidades Lhe provocam.

     Nos Evangelhos, Cristo convida-nos a imitá-Lo:
                 «Dei-vos o exemplo para que, tal como fiz convosco, façais vós também» (João 13, 15).

     Isto pode ser conseguido, prioritariamente, ao longo de duas vertentes muito fortes: (I) esforçando-nos por seguir os Três Exemplos de Cristo; (2) esforçando-nos por alcançar o pleno domínio do Corpo de Desejos.

     O primeiro ideal para «imitar Cristo» e «seguir a Cristo em tudo», resume-se como acabámos de ver em tentar seguir os Três Grandes Exemplos, ou lições de Jesus:

1 - Fez curas;

2 - Deu de comer às multidões (alimento físico);

3 - Deu-lhes ensinamentos (alimento espiritual).

     Sabemos que Ele por vezes se retirava para orar na solidão e no silêncio, mas se desejamos verdadeiramente imitá-Lo devemos empenhar os nossos esforços em seguir o Seu exemplo no convívio com o mundo, em vez de nos retirarmos como eremitas para um local isolado, preocupados apenas com o nosso auto-aperfeiçoamento individual e indiferentes às carências e dores dos nossos irmãos que padecem e choram à nossa volta.

     Cresceremos muito mais, espiritualmente, no caminho da perfeição, se tomarmos como norte esses três exemplos: curar, alimentar, ensinar. Na nossa vida quotidiana devemos esforçar-nos, enquanto aspirantes rosacrucianos, por:

• aliviar e sanar as dores dos que sofrem,
• alimentar os famintos,
• ensinar os que não sabem.

     Ou seja, os Ensinamentos Rosacruzes convidam-nos a «seguir o exemplo de Cristo», a fim de purificar a aura da Terra purificando ao mesmo tempo as nossas próprias auras, e, mais do que tudo, a fim de aliviar o Cristo da Sua pesada carga, substituindo-O, e libertando-O finalmente da Sua dolorosa ainda que amorosa e voluntária missão.
     Quanto ao segundo ideal enunciado acima - alcançar o pleno domínio do Corpo de Desejos - constitui o grande desafio da transição da actual Era de
Peixes para a Era de Aquário.
     Ser senhor do Corpo de desejos não é fácil. Se consultarmos a Bíblia, que foi dada ao mundo ocidental pelos Anjos do Destino os quais, tal como se diz no Serviço de Templo, «estão acima de todo o erro», veremos que Jesus nos exortou, com palavras, actos e exemplos, a sermos senhores do Corpo de Desejos se desejamos sinceramente servir o próximo com serviço amoroso e desinteressado e habilitarmo-nos ao ingresso na senda da Iniciação Rosacruz.

     Actualmente, um dos grandes males que aflige a padecente humanidade é que os seres humanos, em vez de serem senhores do Corpo de Desejos servindo-se do seu «potencial para a acção» com uma finalidade altruista, justa e positiva, são pelo contrário escravizados pelas emoções inferiores e pelas paixões, dando origem a todo um cortejo de males que corrompem o mundo e de que temos notícias quotidianamente: ódios, violências, intolerância, devassidão, egoísmo, ganância (capitalista e não só), medo, apego cego às religiões de raça e aos seus fundamentalismos, etc. A nossa morada, a Terra, devido à «dureza dos corações» dos homens, cristalizou-se a um ponto talvez só comparável à cristalização a que se chegara nos tempos em que o Grande Espírito Crístico teve de encarnar nos veículos de Jesus para purificar a Terra com o Seu Sangue Redentor. Se estudarmos com atenção os exemplos bíblicos da actuação de Jesus veremos que Ele, mediante as suas acções e os seus exemplos, nos ensina permanentemente como gerar a «emoção pura» para a pôr ao serviço do Espírito - ou seja: como operar a transmutação alquímica da Paixão em Compaixão, tendo sempre como objectivo a Irmandade Universal (Urano, Aquário), cimentada no Amor (urânico, não apenas venusino) e com rejeição do «olho por olho». Não há meio termo: ou contribuimos para dissolver com os nossos amorosos pensamentos e actos o terrível grau de cristalização a que chegou o Corpo de Desejos da Terra, purificando-o, ou, pelo contrário, contaminamos e corrompemos ainda mais, com os nossos erros, o Corpo de Desejos planetário, e por conseguinte o nosso; da nossa escolha depende o nosso futuro, e, repetimo-lo, este é sem dúvida o grande desafio que temos pela frente, ao longo da época convulsa que atravessamos.

     Bem sabemos que as emoções e as paixões se descontrolam com trágica facilidade, com todo a casta de pesadelos daí decorrentes. É por conseguinte imperioso que saibamos como «caminhar sobre as águas», e como «acalmar a tempestade», ou seja: é-nos imperioso saber pairar sobre as emoções, estar acima delas e ser senhor delas, e controlar as «tempestades emocionais» (águas revoltas) que agitam com demasiada frequência o nosso Corpo de Desejos. Recomenda-se vivamente ao aspirante rosacruciano que medite sobre alguns dos episódios bíblicos onde são transmitidas as Instruções Iniciáticas relativas a «ser senhor do Corpo de Desejos»: o episódio em que Jesus acalmou o vento e as águas tempestuosas no mar Tiberíades, ou da Galileia (Mateus 8, 23-27; Marcos 4,35-41; Lucas 8, 22-25), o episódio em que Jesus caminhou sobre as águas, no mesmo mar (Mateus 14,24-34; Marcos 6, 47-52; João 6, 16-21), e o episódio onde se descreve a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, montado nurnjumento (Mateus 21, 1-9; Marcos 11, 1-10; Lucas 19,29-40; João 12, 12-
19).

     Não é difícil de entender que o mar simboliza o Corpo de Desejos e o Mundo do Desejo, as ondas tumultuosas são as paixões e as emoções negativas, e os ventos são os medos e as preocupações. As águas tempestuosas das paixões e das emoções descontroladas são no entanto aquietadas com as palavras de paz do Cristo, ou, no que nos diz respeito, do nosso Cristo interno. O aspirante espiritual deve, pois, tomar-se capaz de pacificar as emoções com pensamentos, palavras e atitudes de profunda paz e em harmonia com a divina ordem universal, controlando o Corpo de Desejos - em vez de se deixar escravizar por ele.

     Quanto ao simbolismo do terceiro episódio é igualmente flagrante: «montar o jumento» significa controlá-lo e ser senhor dele, para que nos obedeça docilmente: o jumento simboliza os desejos inferiores e grosseiros, sobre os quais o aspirante deve ter um domínio total. Ou seja: importa pois dominar o Corpo de Desejos sem o destruir, e é por isso que, ao contrário das doutrinas orientais que ensinam a matar a natureza dos desejos inferiores, a doutrina cristã nos diz que ao desejo não se deve matá-lo, mas sim domá-lo e sublimá-lo, pondo-o ao serviço do Eu-Superior. Só entra triunfalmente em Jerusalém, ou Yeru-Shalem (<<Fundação da Paz»), aquele que tem perfeito domínio sobre a sua natureza grosseira e inferior: Jesus disse: <<A minha paz vos deixo, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo» (João 14, 27). É esta a «paz que excede todo o entendimento», de que nos fala Paulo (Filipenses 4, 7), e que nos importa alcançar a fim de elevar o actual pesado grau vibratório do Corpo de Desejos do nosso globo. A instrução é clara: só se alcança esse excelso estado de paz pelo domínio seguro e autodisciplinado das emoções e dos desejos, motores da acção consciente e eficaz, e nunca pela sua «morte» ou aniquilação: Jesus nunca conseguiria entrar em Yeru-Shalem cavalgando um burro morto.

     Quem se identifica com a sua natureza inferior, ilusoriamente separada de Deus, fica sujeito a tudo aquilo em que crê e a que atribui poder. Mas quando aprende a aplicar a verdade libertadora (<<Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará» - João 8, 32) identifica-se finalmente com a sua individualidade espiritual - o Cristo interno - e sairá vitorioso porque se sabe Filho de Deus: ultrapassará todas as limitações porque o Espírito é
ilimitado.

     Que as Rosas floresçam na vossa Cruz.


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1 «. .. that the birth of Christ upon earth is the death of Christ to the glory of heaven; that at the time when we rejoice at Bis annual coming, He is invested again with the heavy physicalload which we have crystallized about ourselves and which is now our dwelling place=-the earth. ln this heavy body He is then encrusted, and anxiously He waits for the day of final liberation.» - Max Heindel, The Mystical Interpretation of Christmas; Oceanside: The Rosicrucian Fellowship, 1925; pp. 23-24.
2 « ... to make himselfmore the servant ofthe Cross than ever before, more closely to foJlow the Christ in everything by sacrificing himself for his brothers and sisters, by uplifting humanity within his immediate sphere of work 50 as to hasten the day of liberation for which the Christ Spirit is waiting, groaning and travailing.» - Id., ibid., pp. 24-25.
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Membro da Rosicrucian Fellowship desde 1984
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António de Macedo
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Centro Rosacruz Max Heindel
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