Centro Rosacruz Max Heindel
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O Uso do Pergaminho
e o Pecado Original
António de Macedo
I – Introdução
Para nós, cristãos, os 27 livros do Novo Testamento constituem o fundamento e a chave da nossa Escritura Sagrada. Durante o primeiro século, no tempo em que Jesus exerceu o Seu ministério – e mesmo bastante depois –, o papiro era o material de escrita mais correntemente utilizado em todo o Médio Oriente, Egipto, Ásia Menor, etc. A partir dos séculos iii-iv começou a generalizar-se o uso do pergaminho. Que alterações é que esta mudança acarretou?
Ouçamos o que nos dizem dois especialistas neotestamentários altamente reputados a nível internacional, Kurt Aland e Barbara Aland:
«Um manuscrito [em pergaminho] que contivesse um conjunto de escritos do Novo Testamento em formato médio, com cerca de 200-250 fólios de aproximadamente 25x19cm, exigia, pelo menos, as peles de cinquenta a sessenta carneiros ou caprinos» (Aland & Aland 1989, 77).
Ou seja, cada exemplar – e um só – do Novo Testamento, em pergaminho, exigia o sacrifício sangrento de um rebanho completo de animais… As cópias circulavam às centenas – uma autêntica matança açougueira, que durou séculos. Que significado podemos extrair desta constatação aterradora?
II – Cristo e a Escritura judaica
Recapitulemos um pouco a história da transmissão neotestamentária.
No tempo de Cristo ainda não havia Novo Testamento, como facilmente se compreende: quando Ele faz referência à Escritura, trata-se evidentemente da Escritura judaica, que os cristãos mais tarde começaram a designar por «Antigo Testamento» a fim de a distinguir da nova Escritura, exclusivamente cristã, que aliás só começou a ganhar forma como um todo autoritativo bastante tarde: por exemplo o corpus dos quatro Evangelhos só ficou estabelecido nos finais do século ii, embora o corpus paulino (as epístolas de Paulo, das quais sete não são autênticas) tivesse sido reconhecido mais cedo; as chamadas «Epístolas Católicas» (a deTiago, as duas de Pedro, as três de João e a de Judas) só foram reconhecidas no seu conjunto no século iv, e o Apocalipse permaneceu num limbo duvidoso durante vários séculos (Aland & Aland 1989, 167).
A Escritura judaica é constituída por três grupos de livros: a Torah (a «Lei», que compreendia os cinco livros do Pentateuco: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio), os Nevi’im (os «Profetas», ou «Livros Proféticos», como p. ex. Isaías, Ezequiel, Daniel, etc.) e os Khetuvim (os «Escritos», como p. ex. os Salmos, o Cântico dos Cânticos, o Eclesiastes, etc.).
Eram estes venerandos textos – sobretudo os dois primeiros, «a Lei e os Profetas» –, que Jesus lia no Templo e nas sinagogas, e comentava, para ensinar os Seus ouvintes, como vemos por exemplo em Lucas 4, 15-22 e noutros passos do Novo Testamento[1].
III – Interpretação oculta da Escritura
Quando, após a morte e a ressurreição de Cristo, os dois discípulos que se dirigiam a Emaús O encontraram na estrada e não O reconheceram, foram comentando com o «desconhecido», durante o caminho, a morte de «Jesus de Nazaré», referindo-se-Lhe como «um profeta poderoso em obra e em palavra». Nesse episódio se relata como Jesus, em vida, «interpretava as Escrituras» (Lucas 24, 27), e como «abria [o sentido] das Escrituras» (Lucas 24, 32). Ou seja, Jesus em diversas ocasiões tomou como ponto de partida, para as Suas prédicas, a «hermenêutica» que fazia desta ou daquela passagem das Escrituras judaicas, o que equivalia de certo modo à actividade do me-turgem-an, com a diferença de que este era um «leitor-intérprete» profissional, que, no Templo e nas sinagogas, traduzia para aramaico, e interpretava em voz alta, o texto hebraico lido pelo sacerdote durante as respectivas liturgias.
Convém recordar que a partir do século vi a. C., e coincidindo com as décadas do «exílio na Babilónia», o aramaico substituiu a pouco e pouco o hebraico entre os judeus, na linguagem falada e no uso corrente. O povo deixara de falar e entender o hebraico, que ficou apenas como lingua sagrada da Escritura. Daí a necessidade do intérprete: durante a liturgia os textos sagrados eram lidos em hebraico, e ao lado encontrava-se o tal me-turgem-an que traduzia em voz alta para aramaico e interpretava o respectivo texto. Esta actividade chamava-se targum, palavra aramaica que significa «tradução» ou «interpretação»; o me-turgem-an («leitor-intérprete», palavra que tem a mesma raiz de targum) não se limitava a traduzir e a dar uma interpretação mais ou menos moral ou mesmo alegórica: o targum visava também e sobretudo explicitar o sentido oculto da Escritura.
Embora os targums escritos começassem a aparecer gradualmente durante os primeiros séculos da era cristã (período talmúdico), só o targum oral fazia autoridade. O reconhecimento oficial do «Targum» escrito ocorreu apenas a partir do século v d. C.
IV – A transmissão oral, de Mestre a discípulo
Portanto, a tradição oral estava muito enraizada, e isto ocorria não só nas Escolas sacerdotais mas também, e sobretudo, nas Escolas mistéricas: a transmissão de boca a ouvido, ou de mestre a discípulo, era a regra; em certos casos era mesmo rigorosamente vedada qualquer passagem a escrito dos ensinamentos que o Mestre proferia.
Durante os três anos do ministério de Cristo e durante cerca de vinte anos após a Sua morte e ressurreição essa regra manteve-se: não há notícia de Cristo ter deixado algum texto doutrinário, e nem sequer lhe foi atribuído nenhum por algum discípulo mais zeloso, como era normal acontecer em diversas escolas místicas ou filosóficas desse tempo, em que falsos apógrafos circulavam em nome do mestre ou do fundador sem que ninguém se chocasse com isso – era uma maneira de conferir autoridade ao escrito e ao mesmo tempo de prestar homenagem ao mestre ou fundador. Como aliás aconteceu, por exemplo, com a Escola de Paulo: das 14 epístolas que compõem o corpus paulino do Novo Testamento, sete são autênticas, mas as outras sete foram redigidas por discípulos mais ou menos tardios, o que não obstou a que a sua autoria fosse atribuída a Paulo.
Isto significa que até bastante tarde se respeitou o conhecimento de que o Ensinamento de Jesus era destinado à transmissão oral, o que é característico duma Escola iniciática, portanto se aparecesse qualquer escrito «assinado» por Jesus, seria repudiado como espúrio para não dizer blasfemo. Os primeiros escritos cristãos que chegaram até nós, as epístolas de Paulo, apenas começaram a circular a partir do ano 50 d. C., e mesmo esses textos não são «tratados doutrinários» no sentido técnico do termo, mas meras cartas que Paulo ia endereçando às diferentes comunidades cristãs com reflexões sobre a sua experiência pessoal (e a sua interpretação) a respeito do Mistério Crístico, na sequência da Iniciação mistérica a que fora submetido – a famosa «conversão na estrada de Damasco».
Só na segunda metade do século primeiro é que as Escolas de Mistérios Cristãos sentiram necessidade de fixar por escrito um certo conjunto de alegorizações ritualísticas, tomando como base «os actos e os ditos» de Jesus – a chamada «literatura evangélica» que surgiu por essa altura. Daí o facto de Max Heindel (1865-1919) e Rudolf Steiner (1861-1925) referirem que os quatro Evangelhos canónicos são Rituais de Iniciação de quatro diferentes Escolas de Mistérios.
V – Primeira fase dos livros de papiro: os «rolos»
Como se disse há pouco, o papiro era o material de escrita preferencialmente utilizado nessa época e na vasta área geográfica abrangida pelo Império Romano.
Os manuscritos cristãos de que temos notícia, do primeiro e do segundo séculos, redigidos em grego e dos quais – ou dalguns dos quais – chegaram fragmentos até nós, são escritos em papiro.
A planta do papiro era abundantemente cultivada no delta do Nilo, mas também em outras regiões do Médio Oriente. É uma planta herbácea aquática cujos caules, encorpados e de secção rudemente triangular, chegam a ter uma grossura de 6 cm e podem alcançar uma altura de cerca de 5 a 6 metros. Os caules, depois de divididos em secções, eram cortados longitudinalmente, com instrumentos afiados, para produzir tiras que se colocavam lado a lado a fim de formar uma finíssima camada de «papel» com as fibras correndo paralelamente. Sobre essa camada colocava-se outra, cujas fibras ficavam a formar ângulo recto com as da primeira, e ambas eram humedecidas e pressionadas com um peso de modo que a «cola» da própria seiva unia as duas finíssimas folhas, que, depois de secas ao sol, formavam uma única e resistente folha de «papel».
Os livros resultantes, caligrafados pelos escribas, ou copistas, tinham a forma de rolos, com uma altura variável (25-30 cm) e um comprimento que podia atingir os 9 metros. O nome deriva dos dois suportes cilíndricos de madeira, em forma de rolo, em cada extremidade da extensa folha, o que permitia enrolar e desenrolar num sentido ou noutro. Depois do livro pronto e enrolado, era facilmente transportável.
Toda a literatura da época, inclusivamente a literatura judaica vulgar, era escrita sobre papiro, excepto a Escritura sagrada dos judeus, redigida em hebraico, que a tradição exigia que fosse escrita sobre pele de vitelo… (Aland & Aland 1989, 75 e 102). A quem deseje informar-se sobre o retrocesso que isto significa (sacrifício do novilho, ou bezerro), convida-se a leitura atenta dos seguintes trechos do Conceito Rosacruz do Cosmos : cap. XIII - «Em Direcção à Bíblia» (Heindel 1998, 246-253), e cap. XIV - «Análise Oculta do Génesis» - «Jahvé e a Sua Missão» (Heindel 1998, 263-265).
Os 96 manuscritos papiráceos dos escritos do Novo Testamento que chegaram até nós são na esmagadora maioria fragmentários, ou, se algum deles abrange algum dos livros neotestamentários do princípio ao fim, não deixa de apresentar lacunas em diversos pontos. Somente o papiro classificado como p72, do século iii ou iv, contém por inteiro as duas epístolas de Pedro e a epístola de Judas.
Destes 96 papiros o mais antigo é o fragmento p52, com duas passagens do capítulo 18 do Evangelho de João, e que os especialistas calculam que pode ser datado entre o ano 100 e o ano 125, ou seja, trata-se duma cópia valiosa, muito próxima do original, que se supõe ter sido escrito nos anos 90 do primeiro século (Ehrman & Holmes 2001, 3-18).
VI – Segunda fase dos livros de papiro: os «códices»
Uma novidade da literatura cristã é que todos estes manuscritos papiráceos (excepto quatro) não pertencem a rolos, mas sim a códices, incluindo o fragmento mais antigo, o tal do ano 100-125. Que quer isto dizer? Vimos que o «rolo» era o formato usual do livro desse tempo; os cristãos introduziram a novidade de cortar as folhas de papiro em cadernos de fólios rectangulares, encadernando-os em formato de livro protegido por duas capas, tal como os livros de hoje. Além disso introduziram também o hábito de escrever dos dois lados da mesma folha, ao contrário do que sucedia com os «rolos». É a estes livros de papiro que se dá o nome de «códices» (Aland & Aland 1989, 75-76).
Durante o primeiro e o segundo século os textos cristãos – incluso a literatura gnóstica de que temos magníficos exemplares nos códices achados em Nag Hammadi – eram exclusivamente escritos em papiro, um elemento vegetal. Esta fase coincide sensivelmente com a fase esotérica em que as comunidades jesuânicas, ainda próximas das Doutrinas e dos Actos do Mestre, transmitiam um ensinamento iniciático.
VII – A «exoterização» dos Ensinamentos Crísticos
A pouco e pouco, porém, foi-se dando aquilo a que um certo número de especialistas bíblicos laicos convencionou chamar a «corrupção ortodoxa», ou seja, certas comunidades adulteraram os Ensinamentos num sentido exotérico, a fim de os impor em oposição vantajosa aos «mitos» do paganismo, dando origem à Cristologia perfilhada pela Grande Igreja (por exemplo Jesus de Nazaré igual a Deus, nascimento virginal de Jesus por obra do Espírito Santo, ressurreição de Cristo «em corpo», etc.). Essa Cristologia acabaria por se impor definitivamente no século iv com o apoio de Constantino, tomando conta do poder global religioso e destruindo com uma ferocidade sanguinária tudo quando fosse esotérico, mistérico e/ou iniciático, sob o anátema geral de «heresias» (Ehrman 1996, passim).
Esta terrível fase cresceu sensivelmente paralela com a grande expansão do uso do pergaminho.
Consideremos o seguinte quadro:
MANUSCRITOS GREGOS DO NOVO TESTAMENTO
(Descobertos até 2001, e devidamente classificados e catalogados)
Data aprox. Em papiro Em pergaminho
Século II 2 -
Ano 200 4 -
Séc. III 29 3
Séc. IV 22 16
Séc. V 10 44
Séc. VI 11 61
Séc. VII 13 33
Séc. VIII 5 33
Séc. IX - 70
Séc. X - 146
Séc. XI - 441
Séc. XII - 588
Etc.
Este quadro poderia prolongar-se até ao século xvi, com a definitva ausência do papiro e a crescente quantidade de manuscritos em pergaminho, datáveis até esse século, que foram sendo descobertos e catalogados. Com a invenção da imprensa no século xv e o uso generalizado do papel, o pergaminho caiu em desuso. O papel, que havia sido descoberto pelos chineses no século i d. C., espalhou-se no mundo ocidental através dos árabes e começou a ganhar popularidade sobretudo a partir do século xii, embora se conheça pelo menos um manuscrito do Novo Testamento, em papel, do século ix.
Actualmente os especialistas já conseguiram catalogar cerca de 5.400 manuscritos de textos do Novo Testamento, em papiro, pergaminho e papel: destes 5.400, cerca de 1.300 são em papel.
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