Centro Rosacruz Max Heindel
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O Uso do Pergaminho e o Pecado Original
VIII – O papiro e o pergaminho: primeiras conclusões
Associando estas informações com o exame do quadro anterior (e no que diz respeito apenas ao Novo Testamento), podemos extrair, para já, as seguintes conclusões:
(1) – O papiro, que foi o grande material de escrita nos primeiros séculos do Cristianismo, deixou de se usar definitivamente no século viii;
(2) – O pergaminho, que começou a ser usado, ainda que esporadicamente, no século iii, impôs-se definitivamente a partir do século iv, destronando o papiro em poucos séculos e duma forma irreversível;
(3) – O papiro, extraído do reino vegetal, serviu de veículo transmissor dos textos sagrados (mistéricos) durante os dois ou três séculos iniciais do Cristianismo, quando preponderavam ainda as comunidades cristãs iniciáticas ; por sua vez o papel, igualmente extraído do casto reino vegetal, passou a ser utilizado a partir do arranque dos grandes movimentos espirituais, o templarismo esotérico, os franciscanos Spirituali, a theosophia de Jacob Böhme e correntes derivadas, o Rosacrucismo do Renascimento – e até aos nossos dias, em que o «esoterismo cristão» ganha cada vez mais força e expansionismo;
(4) – Quando a dogmatologia exotérica da Grande Igreja se impôs, a partir do século iv e durante toda a Alta Idade Média («Dark Ages»: séculos v a xi), prosseguindo com as perseguições da Igreja aos Cátaros, a criação da Inquisição no século xiii e todos os criminosos desmandos da História eclesiástica, incluindo a ambição papal de exercer domínio e poderio sobre príncipes e imperadores, dando origem a guerras que ensanguentaram a Europa durante vários séculos, até à Reforma (século xv), o material utilizado para a propagação exotérica do Novo Testamento foi o pergaminho, extraído das peles de animais (como por exemplo o bode) caracterizados por um corpo de desejos de vibrações baixas e grosseiras.
(5) – Entre os séculos iv e xvii, por conseguinte, em que a intolerância religiosa da Igreja se exteriorizou através de violentas polémicas, aniquilações, guerras, cruzadas sanguinárias, inquisições e campanhas anti-«heréticas» de diversa índole, o derramamento de sangue humano resultante dessa conduta foi acompanhado, paralelamente, pelo derramamento de sangue animal com a finalidade de se multiplicarem cópias em pergaminho das Escrituras cristãs.
IX – A preparação do pergaminho
A efusão de sangue animal que a obtenção do pergaminho exige, e, mais ainda, para servir a transmissão dum texto sagrado, constitui uma perversiva contradição com o que preceituam os Ensinamentos Esotéricos de quase todas, senão mesmo de todas, as Escolas e correntes Iniciáticas, ocidentais ou orientais, que recusam praticar a magia negra associada ao derramamento do sangue nos seus ritos.
Reza a lenda (pelo menos tal como nos foi transmitida por Plínio o Velho) que o pergaminho foi inventado no tempo de Eumenes II (século ii a. C.), rei de Pérgamo, a mais importante cidade da Ásia Menor, onde floresceram artistas e eruditos e se tornou célebre pela sua biblioteca, com mais de 200 mil volumes, só rivalizada pela de Alexandria, no Egipto. Segundo a tradição, o rei Ptolomeu V do Egipto determinou um embargo à exportação de papiro com receio que a biblioteca de Pérgamo viesse a ultrapassar a «sua» biblioteca de Alexandria. Para obviar esse impedimento o rei Eumenes de Pérgamo determinou que se criasse e passasse a utilizar o pergaminho. (A palavra «pergaminho» deriva do adjectivo latino pergamenus, -a, -um, que significa «oriundo de Pérgamo»). Esta é a tradição que desde sempre tem circulado, embora se saiba que o pergaminho já era utilizado, em diversas regiões, bastante tempo antes. Provavelmente a origem da lenda residirá no facto de os pergaminhos de Pérgamo terem a reputação de ser muito finos e de grande qualidade.
Os animais mais correntemente usados para a obtenção do pergaminho eram as ovelhas, os carneiros, as cabras e os bodes, embora também se aproveitasse o vitelo ou o novilho com esse fim. Ora, estes são precisamente os típicos animais sacrificiais dos tempos jeovísticos…
Como se fazia a preparação do pergaminho? A pele do animal tem dois lados: o lado do pêlo e o lado sangrento donde foi retirada a carne. Tanto o pêlo como a carne eram raspados com uma solução cáustica de cal, sendo a pele, depois, cortada à medida das dimensões desejadas, polida e alisada com cré e pedra-pomes, a fim de ficar pronta para utilização. Mesmo depois deste preparo, a diferença entre o lado do pêlo e o lado da carne criava dificuldades ao ordenamento de manuscritos em pergaminho, porque um dos lados ficava sempre mais escuro e o outro mais claro.
X – O sacrifício animal
Esfolar um animal para uma utilização profana é chocante, mas enfim, uma grande parte da humanidade ainda necessita do uso de carne, mas fazê-lo para uma utilização sagrada, depois da oblação de Cristo «uma vez por todas» (cf. Hebreus 9, 23-28), não é só chocante, é uma abominação que fere a sensibilidade de quem quer que se encontre num nível de espiritualidade mais consciente, por pouco elevado que ainda seja. No seu livro Cartas aos Estudantes (Carta n.º 90, Maio de 1918), o iniciado rosacruciano Max Heindel diz o seguinte:
«Decerto que pensar no sofrimento que se causa aos pobres animais, nos comboios a caminho do matadouro, e a agonia que precede o instante em que é desferido o golpe que ceifará as suas vidas e o ferro lhes cortará a garganta, induzirá quem quer que aspire à vida superior a sentir compaixão por essas pobres criaturas sem fala que não podem defender-se. […] Infelizmente, a complexidade da nossa civilização obriga-nos a usar couro em muitas coisas porque ainda não existem substitutos adequados no mercado, por exemplo em sapatos, cintos, etc.[2] Seja porém como for, deveríamos fazer todos os possíveis para evitar o uso de qualquer material que provenha do corpo dum animal e que exija a sua morte» (Heindel 1975, 222).
Assim sendo, como se devem entender os sacrifícios sangrentos exigidos por Jahvé, no Antigo Testamento bíblico, como lemos por exemplo nas prescrições sacrificiais do Génesis ou do Levítico?
Tecnicamente, esses sacrifícios devem ser entendidos segundo dois níveis de interpretação: pedagógico e iniciático.
XI – O significado pedagógico da «cerimónia sacrificial»
De um ponto de vista pedagógico, é importante compreender que os textos da Bíblia se referem na esmagadora maioria dos casos a realidades simbólicas e parabólicas, e não se limitam a relatar eventos históricos à maneira grega de um Heródoto, por exemplo, embora este tenha servido de modelo para certos textos judaicos, tardios, de carácter histórico-descritivo. A humanidade mencionada nos livros mais antigos da Bíblia reporta-se às Épocas Polar, Hiperbórea, Lemúrica e Atlante, numa fase em que a humanidade infante necessitava de aprender determinado número de lições para fins evolutivos.
Enquanto o ser humano não atingiu um certo grau de desenvolvimento, não tinha a noção de que a sua natureza espiritual eterna era independente da sua natureza física, e superior a esta. Para ele o físico era tudo; por isso se diz na Bíblia, nos livros referentes ao chamado «período patriarcal», que as recompensas e os castigos de Jahvé tinham de ser concedidos em vida, porque os judeus dos tempos patriarcais não possuíam nenhuma noção de imortalidade. Uma vez que o sacrifício é fundamental para o progresso espiritual, é evidente que a vida que deve ser sacrificada é a que se centra na natureza animal; mas como o homem então pensava que essa natureza inferior era a sua única realidade, não se lhe podia exigir que a sacrificasse porque isso equivalia à sua aniquilação. Assim, a Lei desses tempos exigia-lhe que sacrificasse as suas posses ou riquezas materiais, que consistiam quase sempre em gado e animais, em expiação vicária do seus pecados. Os animais sacrificados no Altar dos Holocaustos (Tabernáculo no Deserto) simbolizam portanto a natureza carnal do ser humano que tem de ser consumida, com o sal da dor, no fogo da aflição e do remorso. A dor é a grande mestra: é ela que limpa os desejos inferiores e prepara o Corpo de Desejos para a vida superior. Ou seja: a purificação é a finalidade pedagógica (e oculta) dos sacrifícios no Altar dos Holocaustos (cf. Heline I-1990, 280-281).
XII – O significado iniciático da «cerimónia sacrificial»
O nível iniciático, por sua vez, complementa e ilumina o nível pedagógico. Quando Abrão[3] perguntou a Jahvé como poderia saber que iria possuir, de facto, a terra que lhe estava destinada, Jahvé ordenou-lhe que fizesse um sacrifício: «Toma uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho» (Génesis 15, 9).
A iniciada rosacruciana Corinne Heline (1882-1975) ajuda-nos a compreender o contexto iniciático na sua obra-mestra New Age Bible Interpretation : Abrão cumpriu o que Jahvé lhe ordenara, mas não se tratou de nenhuma cerimónia sacrificial sangrenta, pois todo o episódio descrito ocorre num nível suprafísico (Heline I-1990, 88-89). C. Heline recorda-nos que as verdades espirituais mais profundas nunca são passadas a escrito, mas sim transmitidas oralmente, de mestre a discípulo, e sempre de acordo com o grau de entendimento que o discípulo está apto a apreender. É por isso que o relato escrito, necessariamente fragmentário, de certas «experiências anímicas» resulta obscuro e enigmático para quem não tenha atingido o nível de consciência e de desenvolvimento de alma que lhe permita a confirmação através do «conhecimento directo» ou «em primeira mão» – tal como ensina Max Heindel no Capítulo XVII do Conceito Rosacruz do Cosmos.
Com efeito, a agonia e a morte dum ser vivo que acompanham o sacrifício animal não contribuem em nada para formar as asas que a alma desenvolve na sua elevação aos níveis superiores, tal como lemos noutro passo da Bíblia: «Amor fiel é o que me agrada, não sacrifícios; gnose de Deus, não holocaustos» (Oseias 6, 6). Este preceito da Escritura judaica é parafraseado por Jesus quando os fariseus O criticaram por se encontrar em casa, a comer, acompanhado de publicanos e notórios pecadores: «Ide e aprendei o que significa: Compaixão quero e não o sacrifício; pois não vim a chamar os justos, mas sim os que erram» (Mateus 9, 13).
A epístola aos Hebreus declara peremptoriamente: «Porque é impossível que o sangue de touros e de bodes tire os pecados [no original: “apague os erros”]» (Hebreus 10, 4).
A chave astrológica dá-nos, desde logo, um primeiro acesso ao sentido iniciático da acima referida ordenação de Jahvé: – a novilha é o símbolo do signo do Touro, e o seu sacrifício significa a renúncia tanto dos desejos sexuais como dum amor meramente egoísta e personalizado; a cabra é o símbolo do Capricórnio e significa o sacrifício da ambição e do poder mundanos; o cordeiro é o simbolo do signo Carneiro e representa a ressurreição dos poderes vitais mediante a castidade e a transmutação; finalmente a rola e o pombinho são símbolos do signo Balança, e referem-se às experiências subtis que pôem à prova a capacidade de discernimento neste estágio de realização espiritual (Heline I-1990, ibid.).
XIII – O «sacrifício» e o «pecado original»
Vemos por estes exemplos extraídos da Escritura que coexistem aqui duas componentes entrelaçadas: a necessidade de sublimação dos desejos sexuais (sacrifício da natureza animal do ser humano) e a necessidade de se acabar algum dia com a matança dos animais, nossos «irmãos menores» (abolição do sacrifício vicário e/ou utilitário dos seres vivos do reino animal).
Ambos estes items – ou cada um deles de per si –, na sua fase primordial (e transgressiva), constituem o que tem sido chamado o «pecado original». Em qualquer dos casos, a consequência do «pecado original» foi, para o ser humano, uma situação de declínio e ruína que se convencionou designar por «Queda», e que se pode definir como a passagem dum estado de beatífica harmonização interna/externa para um estado de consciência da dor e da morte.
Este conceito de «pecado original» pode ser apreendido segundo três modelos de cognição:
– Modelo teológico-exotérico;
– Modelo esotérico;
– Modelo laico.
XIV – Acepção teológico-exotérica do «pecado original»
Para os teólogos cristãos, o «pecado original» tem justificação na Bíblia, e constitui a condição moralmente degradada em que cada pessoa se encontra ao nascer, por pertencer a uma espécie «geneticamente» pecadora. Este pecado «genético» é uma consequência herdada do primeiro pecado humano, o de Adão. Não há acordo entre os teólogos quanto à interpretação da narrativa bíblica sobre a «desobediência» de Adão, ao comer o fruto proibido do «conhecimento do bem e do mal», mas, duma forma geral, concordam que o «pecado original» deriva do facto de cada ser humano não vir ao mundo como indivíduo isolado, mas como um membro duma raça que herdou, no seu conjunto, as boas e as más características da sua história passada.
No entanto, em todo o Antigo Testamento não se fala em «transmissão hereditária» duma condição inicial pecaminosa; apenas há referência, no Génesis, às consequências naturais daquele acto: a mulher passará a parir em dores e o homem dominá-la-á (predomínio do patriarcalismo), e o homem por sua vez tirará da terra o seu sustento com trabalhos penosos e suor do rosto, e a terra produzir-lhe-á espinhos e abrolhos (Génesis 3, 16-19).
No Novo Testamento tão-pouco há referência a uma condição pecaminosa hereditária; o eminente teólogo jesuíta Karl Rahner (1904-1984), um dos mais conceituados teólogos do século xx, acentua categoricamente que não se encontra em nenhum dos Evangelhos a ideia de que o estado actual da humanidade seja devido ao «primeiro pecado». Já no século xviii o Iluminista Voltaire dizia o mesmo, com a veia satírica que o caracteriza: «Em suma, os judeus conheceram o pecado original tanto quanto conheceram as cerimónias chinesas; e, embora os teólogos costumem encontrar tudo o que querem na Escritura, ou totidem verbis, ou totidem litteris, podemos garantir que um teólogo razoável jamais encontrará aí esse mistério surpreendente» (Voltaire 1964, 310-311).
Os teólogos mais renitentes e conservadores, porém, não deixam de citar uma passagem – de interpretação, aliás, difícil – da epístola de Paulo aos Romanos (5, 12-19), em que se estabelece um paralelismo entre Adão e Jesus Cristo: pela desobediência de Adão entrou a morte no mundo e muitos foram constituídos pecadores; pela obediência e pela justiça de Cristo muitos serão constituídos justos. Para a Igreja católica, só no Concílio de Trento e durante o primeiro período de trabalhos do Concílio (1545-1547) é que ficaram definidas a natureza e as consequências do «pecado original».
O ritual do Baptismo, que no Cristianismo primitivo, esotérico, era uma Iniciação mistérica de alto significado, passou a ser, com a exoterização da Igreja e da sua tradição dogmática, um acto purificatório para «remissão dos pecados», e as crianças tinham de ser baptizadas a fim de ficarem limpas do «pecado original» que haviam herdado do transgressivo Adão.
Portanto, de um ponto de vista estritamente exotérico, o «pecado original» seria um acto de desobediência que a primitiva humanidade (Adão e Eva) teria cometido ao infringir uma ordenação divina. Essa desobediência, instigada pela «serpente» e praticada em primeiro lugar por Eva, que em seguida desencaminhou Adão, explica-se, sgundo a exegese rabínica, pelo facto de o nome de Eva [hebr. hawah, «vida», Génesis 3, 20] se poder associar ao termo aramaico hewyâ, «serpente», donde resulta a interpretação de que a serpente foi a ruína de Eva e Eva por sua vez foi a «serpente» de Adão. Certos autores admitem que este mito possa ter alguma conexão com uma serpente-divindade fenícia, chamada hwt.
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