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Centro Rosacruz Max Heindel
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O Uso do Pergaminho e o Pecado Original
XIX – A carne e o vinho

De acordo com a Bíblia, a humanidade era vegetariana antes da expulsão do paraíso terrestre: «Eis que vos dou toda a erva que dá sementes sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm semente; isto vos servirá de alimento» (Génesis 1, 29).

Ainda segundo a Bíblia, a alimentação carnívora começou depois do Dilúvio: quando Noé e sua família, e todos os animais que estavam na arca, aportaram a terra após a retirada das águas, Deus disse a Noé e aos seus flhos:

«Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra. Sede o terror e o medo de todos os animais na terra e de todas as aves nos céus; e tudo o que se move na terra e de todo o peixe no mar; estão entregues nas vossas mãos. Tudo o que vive e se move servirá para vosso alimento; dou-vos tudo isto, tal como vos dei a folhagem das plantas» (Génesis 9, 1-3).

Na sequência deste relato, surge-nos um bisneto de Noé, Nimrod, do qual se diz que «foi o primeiro homem possante sobre a terra; era um poderoso caçador aos olhos de Jahvé, daí o adágio: “Como Nimrod, poderoso caçador aos olhos de Jahvé”» (Génesis 10, 8-9).

Max Heindel explica-nos que a alimentação carnívora dos seres humanos e o aparecimento do «caçador» Nimrod estão mal colocados na Bíblia (Heindel 1977, 22), e que a correcta sequência dos acontecimentos – em função das Épocas citadas no cap. XV deste artigo – deverá ser a seguinte (Heindel 1985, 218-225):

– 1 Época Polar – Humanidade semelhante aos minerais – Figura simbólica: Adão, formado de «barro»;

– 2 Época Hiperbórea – O Corpo Denso da humanidade foi revestido com o Cospo Etérico ou Vital, e os seres humanos tornaram-se semelhantes às plantas – Figura simbólica: Caim, cultivador de cereais;

– 3 Época Lemúrica – O Corpo de Desejos foi acrescentado à humanidade, que se tornou semelhante ao animal – Figura simbólica: Abel, pastor que não matava os animais para deles se alimentar, mas que se utilizava do leite;

– 4 Época Atlante – A Mente foi acrescentada ao ser humano para que finalmente se estabelecesse o elo entre o Espírito e o Corpo – Figura simbólica: Nimrod, «poderoso caçador», uma vez que se tornara necessário introduzir a carne na alimentação humana: Nimrod simboliza os reis atlantes anteriores ao Dilúvio;

– 5 Época Ariana (actual) – Tempo em que o ser humano teve de atingir o ponto mais baixo da materialidade, indispensável para conquistar e dominar a matéria – Figura simbólica: Noé, que introduziu a cultura da vinha e o uso do vinho – Este novo alimento, juntamente com a carne, provocou o transitório obscurecimento das verdades espirituais, permitindo à humanidade alcançar o máximo da sua evolução material.

A partir de uma determinada etapa desta 5.ª Época, e depois de ter «batido no fundo», começará para o ser humano a evolução espiritual com a substituição do egoísmo pelo amor e pelo altruísmo, ao mesmo tempo que a carne e o vinho serão abolidos da dieta alimentar por já terem cumprido a sua função, tornando-se altamente perniciosa e negativa, desse ponto em diante, a insistência no seu uso.
XX – Voltando ao «sacrifício»…

Em função de tudo quanto se disse até agora, que significado poderemos atribuir à recaída na especial forma de sacrifício animal correspondente ao uso do pergaminho para a transmissão exotérica dos textos sagrados cristãos, entre os séculos iv e xvi?

Lançando um olhar sobre a história da civilização ocidental, há a tendência para se considerar que o máximo da materialidade foi atingido nos séculos xix e xx com o racionalismo materialista e historicista de Karl Marx, o positivismo comteano, a revolução industrial, o capitalismo liberal e neo-liberal, e revolução científica e tecnológica…

Mas há que distinguir entre o materialismo filosófico e o materialismo espiritual, pese embora a aparente contradição de termos neste último caso. O primeiro é uma atitude do intelecto que afecta sobretudo o comportamento mundano, teórico-prático, do ser humano, ao passo que o último é uma atitude que rebaixa ao nível da carne o que é exclusivo do espírito – como por exemplo dogmatizar a virgindade carnal da Virgem Mãe, a ressurreição carnal de Cristo, a transubstanciação em carne e sangue autênticos, de Cristo, na hóstia consagrada, a ressurreição da carne no final dos tempos… É um retrocesso à memória dos antigos tempos do canibalismo e dos sacrifícios sangrentos.

O materialismo filosófico que se desenvolveu nos séculos xix e xx e que, de certo modo, continuará por algum tempo, é como um adubo fertilizador duma espiritualidade nova – aliás cada vez mais evidente e preponderante –, e mais apta a desvendar e a trazer à Luz o verdadeiro Deus Interno de cada homem e de cada mulher, uma espiritualidade mais responsável, mais consciente e mais propícia a elevar as nossas almas até às luminosas «asas do Sol de Justeza».

Por outro lado, na chamada «Idade das Trevas» e nos séculos que se lhe seguiram até à invenção da imprensa – que fez aumentar em flecha o uso do papel, abolindo por fim o uso do pergaminho –, o derramamento de sangue sacrificial de carneiros e bodes para que nas suas peles se inscrevessem textos sagrados correspondeu a uma fase de obscurecimento, ou de materialismo espiritual, em que a Igreja procurou, pela hipocatástase da carne, difundir o que não podia realizar pelo espírito tal como se exemplificou atrás.

Parafraseando Max Heindel bem como o conhecido passo dos Actos dos Apóstolos: a Igreja desses negros tempos já não podia dizer, como Pedro, «não possuo ouro nem prata», nem ao paralítico «levanta-te e caminha».

No entanto, esta fase transitória, terrível, de retrocesso simbólico ao «bode expiatório» (Levítico 16, 26) que era enviado ao deserto, para a divindade maléfica Azazel, levando sobre si todos os pecados e iniquidades do povo[4], foi necessária a fim de preparar e dar origem, por violenta reacção, ao surto científico e ao Iluminismo dos séculos xvii e xviii, indispensáveis – com todos os seus perigos e riscos – para a conquista da matéria e renovada emergência do espírito. Estes perigos e riscos são precisamente o fermento que fará com que os seres humanos possam enfim tomar plena consciência do que é ser senhor da recta consciência (intelectual, moral e emocional), e ascender, pela liberdade do Espírito, à Nova Era de Luz que se avizinha.

XXI – Conclusão

Pode-se ser tentado a contra-argumentar com a óbvia constatação de que o máximo de materialismo e de irreligiosidade, atingidos nos séculos xix e xx, coincidiu com a total generalização do papel, do «casto» reino vegetal, e que o carniceiro pergaminho já deixara de ser usado pelo menos há três ou quatro séculos.

Sem dúvida; no entanto, o tema deste artigo não tem a ver com os textos profanos, mas apenas, no caso que nos ocupa, com a transmissão dos textos sagrados e, mais especificamente, com a transmissão do Novo Testamento – o grande pólo atractor da Escritura Sagrada Cristã.

O materialismo positivista e neo-positivista dos séculos xix e xx é uma fase de «prova» que a humanidade profana tem de atravessar – e saber vencer – a fim de evoluir espiritualmente. Em contrapartida, foi precisamente nos séculos xix e xx, de triunfante «racionalidade instrumental», que a literatura esotérica se multiplicou de forma nunca vista – «racionalidade aberta» –, tal como se multiplicaram as edições da Bíblia em papel e em traduções num número cada vez maior de línguas.

Este facto – tradução do especial texto sagrado que é a Bíblia em milhares de línguas – cria uma aura de entrelaçamento entre as diversíssimas línguas sob a forma de um elo, ou de um «pensamento cordial comum»: o do Reino de Deus anunciado por Cristo. Curioso e misterioso estratagema místico, que nos permite abrir as portas duma Nova Era vencedora da maldição de Babel !

Esta proliferação de edições e traduções da Bíblia, nada casual, coincide com as novas hermenêuticas de carácter esotérico que, a par duma Esoterologia aprofundada, obtiveram finalmente aceitação académica com inclusão nos programas curriculares de diversas e prestigiosas universidades.

Por fim, mas não por último, não deixemos de ponderar o facto assinalável de ser cada vez mais acentuada a tendência para a alimentação vegetariana, sobretudo entre as gerações mais jovens, com a eliminação gradual do consumo de carne. Os restaurantes vegetarianos proliferam, bem como os «pratos vegetarianos» em muitos restaurantes convencionais, além de que proliferam igualmente as indústrias que produzem, manufacturam e transformam alimentos vegetarianos – sinal seguro de que há cada vez mais procura por parte dos consumidores, ou seja: por parte do público em geral.

O próximo passo a dar será a gradual abolição do álcool na alimentação – que também já começa a ser preterido, em não raros casos, por certas camadas da juventude.

Acompanhemos pois, atentamente, as mudanças vindouras, que incidirão sem dúvida na forma como as Escrituras Sagradas vão passar a ser comunicadas e transmitidas.
Gravadas primeiramente em pedra (mineral), depois em papiro (vegetal), seguidamente em pergaminho (animal – ponto mais baixo), a sua transmissão reascendeu ao vegetal (papel), e… o próximo passo será a reutilização do reino mineral (revolução já em curso), através do silício dos computadores e dos CDs, ou, melhor ainda, das ondas etéricas da Internet e do ciberespaço e do que vier a seguir…

Grandes transmutações se avizinham. Saibamos estar preparados, espiritualmente, para elas.


António de Macedo

Agosto de 2003


Principais referências bibliográficas:

ALAND, Kurt, & ALAND, Barbara, The Text of the New Testament: An Introduction to the Critical Editions and to the Theory and Practice of Modern Textual Criticism [Der Text des Neuen Testaments, 1981], versão revista e aumentada, pelos Autores, para a trad. em língua inglesa; William B. Eerdmans Publishing Co., Grand Rapids (Michigan) 1989.

EHRMAN, Bart D., The Orthodox Corruption of Scripture: The Effect of Early Christological Controversies on the Text of the New Testament (1993), Oxford University Press, reed. New York 1996.

EHRMAN, Bart D., & HOLMES, Michael W., eds., The Text of the New Testament in Contemporary Research: Essays on the Status Quaestionis (1995), vários autores, reed. Wipf and Stock, Eugene (OR) 2001.

Encyclopaedia Judaica, eds.Cecil Roth & Geoffrey Wigoder, 16 vols., Keter Publishing House, Jerusalem 1972.

FREUD, Sigmund, Moisés e a Religião Monoteísta [Der Mann Moses und die Monotheistische Religion, 1939], trad. Paulo Samuel, Guimarães Editores, Lisboa 1990.

HEINDEL, Max, Letters to Students (1925), The Rosicrucian Fellowship, 4.ª ed. Oceanside (CA) 1975.

HEINDEL, Max, Gleanings of a Mystic (1922), The Rosicrucian Fellowship, 5.ª ed. Oceanside (CA) 1977.

HEINDEL, Max, The Rosicrucian Christianity Lectures (1909), The Rosicrucian Fellowship, 4.ª ed. Oceanside (CA) 1985.

HEINDEL, Max, Conceito Rosacruz do Cosmo [The Rosicrucian Cosmo-Conception, 1909], trad. Francisco Marques Rodrigues, Fraternidade Rosacruz de Portugal, 3.ª ed., Lisboa 1998.

HELINE, Corinne, New Age Bible Interpretation, 7 vols., New Age Bible & Philosophy Center, Santa Monica (I vol. 6.ª ed. 1990; II vol. 4.ª ed. 1984; III vol. 1986; IV vol. 5.ª ed. 1985; V vol. 5.ª ed. 1984; VI vol. 5.ª ed. 1984; VII vol. 6.ª ed. 1988).

REGO, José Teixeira, Nova Teoria do Sacrifício (1918), Assírio & Alvim, reed. Lisboa 1989.

VOLTAIRE, Dictionnaire Philosophique (1764), Garnier-Flammarion, reed. Paris 1964.



[1] Há um passo no Evangelho de João que parece dar a entender que Jesus era um iletrado, ao referir que Jesus, ensinando no Templo, suscitou a admiração dos judeus que se interrogavam: «Como é que este sabe de letras (gr. grammata oîden), sem tê-las aprendido?» (João 7, 14-15). O instrutor rosacruciano Edmundo Teixeira (1922-1994), no seu Curso de Cristianismo Esotérico (vol. 3, lição n.º 51) esclarece: «Os de Jerusalém (hierosolimitanos) tinham a certeza que Jesus não havia cursado a Escola Rabínica, para assim conhecer as Escrituras. Acontece que os fariseus representavam o ensino predominante, externo e público, mas os Essénios, além do preparo exotérico, tinham a sabedoria esotérica, que a sua tradição conservava em manuscritos secretos». Ora, Jesus fora educado pelos Essénios, conforme lemos no Conceito Rosacruz do Cosmos : «Jesus foi educado pelos Essénios e alcançou um elevado grau de desenvolvimento espiritual durante os trinta anos em que usou o seu corpo» (Heindel 1998, 299).

[2] Apesar de alguns inconvenientes ecológicos que a evolução da tecnologia sem dúvida acabará por resolver, os diversos tipos de plásticos – materiais sintéticos constituídos por macromoléculas poliméricas, formados a partir de celulose, caseína, petróleo, etc. – são já um indício de que a actual civilização deu um passo importante no sentido de substituir as peles e os ossos dos animais num variadíssimo leque de fins (botões, correias, estofos, vestuário, etc. etc.).

[3] Este famoso patriarca, filho do patriarca pós-diluviano Terah (Génesis 11, 27), começou por se chamar Abrão (hebr. Avram). Mais tarde (Génesis, capítulo 17), num episódio de alto significado esotérico que atesta bem a importância do «poder vibratório dos nomes», Deus mudou o nome de Abrão para Abraão (hebr. Avraham), na sequência da Aliança que fez com ele e da promessa de que seria «pai de muitas nações».

[4] No Médio Oriente antigo os demónios eram deuses menores, seres supraterrenos inferiores, actuando sobre as pessoas para o bem ou para o mal. Segundo o Antigo Testamento bíblico, os demónios nada podiam contra os que estavam sob a protecção de Jahvé (Salmo 91 [90], 5-6), mas actuavam sobre os que se encontravam longe de Deus – por exemplo no deserto (Isaías 13, 21; 34, 14; 50, 39). É o caso de Azazel, demónio do deserto referido no Levítico (16, 8-10.20-26). Supõem os mitólogos que devia tratar-se, inicialmente, de um demónio local, que para ser exorcizado exigia o sacrifício dum bode. Mais tarde aparece associado ao rito da Festa da Expiação (Levítico, cap. 16), e o «bode expiatório» (caper emissarius, segundo a Vulgata Latina) levava para o deserto os pecados de Israel.
                                                                                    
                                                                          António de Macedo
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