Todo o dualismo representa uma polaridade, pois os dois termos que o compõem, mesmo parecendo opostos, são, na realidade, “complementares”.
Não têm uma realidade separada e individual; tomados separadamente surgem incompletos e parciais, apesar de serem dois aspectos de uma realidade única que os transcende a ambos e os sintetiza num nível mais elevado, no vértice de um triângulo simbólico, que constitui, ao mesmo tempo, a meta e a origem da sua existência
Na realidade, o dualismo que parece reinar em toda a manifestação é ilusório e relativo, uma vez que por trás dele está a UNIDADE, a harmonia, um todo único e homogéneo, indivisível e uno.
De onde deriva então a experiência contínua que fazemos da dualidade, da divisão, da dicotomia?
E que sentido e objectivo tem esta experiência se ela é, na realidade, aparente e ilusória?
Segundo Corinne Heline, outra representação do ideal de Sagitário é o Cupido, deus do amor, originalmente representado com a seta a apontar a glândula pineal em vez de apontar o coração.Mais tarde, Depois de o homem perder a consciência do seu mais elevado objectivo espiritual, e as suas afeições se centrarem na parte pessoal, a seta do cupido passou a dirigir-se ao coração.
Para responder a estas perguntas devemos remontar à origem da manifestação e à Causa Primeira de tudo o que existe, tal como a conhecemos através das antigas doutrinas esotéricas.
1 – “Doutrina Oculta”, de Chevrier : “Quando o Único se torna dois, então pode-se qualificá-lo de Espírito e Matéria.
No início havia uma única realidade, o UM, o Absoluto, o Não-Manifesto completo em si mesmo e mergulhado num estado de repouso (pralaya). Periodicamente, este absoluto, este UM sai do seu estado de imobilidade e de repouso e manifesta-se através de uma “ideação cósmica” (manvantara).
De imediato, este acto produz uma dualidade, pois a própria “ideação cósmica”, que é um esquema, cria uma limitação.
Um esquema implica uma opção.
Optar é escolher, é fazer com que a vontade passe de um estado neutro para um estado polarizado: pólo + e pólo -.
Este é o primeiro par de opostos.
No próprio Único manifesta-se em:
Deste par primordial derivarão todos os opostos que a criação manifestará; mais precisamente, todos são Ele e nada mais, as múltiplas reflexões deste duplo aspecto da Vontade criadora.
2 – Na antiga filosofia chinesa.
O UM, que é chamado TAO, também irradia dois princípios opostos, YIN e YANG, com a sua rítmica alternância eles conservam em equilíbrio toda a manifestação. Eles são os dois aspectos da Totalidade, do Absoluto, passivo um e activo o outro, que alternam, lutam, integram-se e multiplicam-se para depois fazer com que tudo volte à harmonia e à unidade.
3 – na religião cristã.
O símbolo da Cruz indica o encontro desses dois princípios, um vertical, o outro horizontal; e o Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, sobe e morre na Cruz para testemunhar emblematicamente o retorno à Unidade (Deus) e a redenção da matéria.
A TRINDADE, encontrada em todas as religiões, indica o ponto alto do processo de fusão dos DOIS (Pai e Mãe, Espírito e Matéria) no Filho, que é a Consciência.
Toda a polaridade se resolve quando surge um terceiro factor num nível mais elevado que sintetiza os dois pólos opostos.
A revelação que se tem quando isso acontece na dimensão humana é que este terceiro factor transcendente não “surge”, mas PREEXISTE por trás da dualidade – aliás, é ele que a produz.
A intuição da “Coincidência dos contrários” (Nicolau de Cusa) que é a chave da Verdade Suprema.
Antes de alcançar a consciência total da unidade que está por trás da dualidade, o homem passa por várias fases:
- identificação total com o pólo “matéria”;
- gradativa descoberta de outras dimensões;
- revelação do “pólo Espírito”,
onde começa o processo de desenvolvimento da consciência, pois começa o CONFLITO, a dolorosa oscilação entre os dois pólos, alternando períodos de negação e de rejeição de um ou de outro aspecto, com períodos de completa identificação.
- período de repulsa total da matéria vista como obstáculo, limitação e nascente de todas as negatividades, representa a fase místico-ascética, durante a qual o pólo espiritual toma as rédeas e o pólo da matéria é completamente rejeitado.
Isto leva a uma unilateralidade e a uma série de repressões que dificultam o desenvolvimento da consciência e impedem a verdadeira auto-realização e o retorno à unidade.
Toda unilateralidade e todo o extremismo produzem uma reacção por parte daquilo que foi negado, e, portanto, mais cedo ou mais tarde levam inevitavelmente a uma recaída no materialismo e na negação do Espírito.
Esta oscilação vai continuar enquanto o homem não aceitar, tendo-a reconhecido, a sua dualidade, e não compreender a sua verdadeira função.
O verdadeiro obstáculo à evolução da consciência não é o dualismo em si, mas o facto de não querer reconhecê-lo e aceitá-lo, o facto de não compreender a sua utilidade e a sua função positiva e necessária para um desenvolvimento total e uma realização autêntica:
- há os que acham que todo o mundo objectivo é “maya”, pois a única realidade é o Absoluto, Deus;
- os materialistas, afirmam que a única realidade é a matéria, consideram os mundos psíquicos e subjectivos como “epifenómenos” do mundo físico.
O verdadeiro sentido da unidade é aquele que surge da consciência de que tudo o que existe em todos os níveis é real, porque é parte do UM, da Divindade, e, portanto, tem a sua razão de ser, tem a sua função, o seu lugar certo.
Aceitando a dualidade como fase evolutiva necessária para o processo de auto-realização e de retorno á Harmonia originária, descobriremos o processo secreto que regula a manifestação e que no homem encontra o seu símbolo mais significativo.
O HOMEM TEM A TAREFA DE REUNIFICAR EM SI MESMO ESTAS DUAS ENERGIAS CÓSMICAS: ESPÍRITO E MATÉRIA: ao espiritualizar a matéria e materializar o Espírito dá vida ao terceiro factor.
“Deus criou o homem à sua imagem e semelhança” = num nível microcósmico, o ser humano, encerra dentro de si a marca de Deus e reflecte na sua natureza as leis universais e divinas.
O Si-mesmo do homem é uma centelha divina emanada do Absoluto e, quando, afinal, pode “encarnar”, porque o longo processo evolutivo através dos reinos da natureza emergiu a forma humana, repete aquilo que aconteceu em nível macrocósmico no momento da “ideação cósmica”, quando o Um, saindo do seu estado de imobilidade e de repouso (pralaya), criou a manifestação.
“…creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes;
creio que tudo é eterno num segundo
creio num céu futuro que houve dantes”
Natália Correia